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A Ascensão Meteórica da Intel: Milagre da IA ou o Prenúncio de um Tombo?

Em questão de meses, a Intel deixou de ser uma foundry capengando para se consolidar como uma das pedras angulares da infraestrutura de inteligência artificial. O mercado reagiu com uma voracidade que não se via há décadas. Para dar a dimensão do estrago positivo, o papel chegou a disparar incríveis 466% nos últimos doze meses, acumulando uma alta de 206% só neste ano. Chegando a bater a casa dos US$ 113 no começo de maio, muito desse gás recente veio surfando em rumores fortes sobre possíveis acordos de chips com gigantes como Apple e Samsung. Hoje, a empresa ostenta o melhor desempenho no índice de semicondutores da Filadélfia (SOX), que, aliás, acabou de registrar sua melhor performance de 25 dias desde março de 2000 — exatamente as vésperas do estouro da bolha das pontocom. E é aí que quem conhece a história do mercado começa a ficar com uma pulga atrás da orelha. Será que a Intel está voando perto demais do sol?

A fagulha mais recente que jogou gasolina nesse rali foi o balanço do primeiro trimestre do ano fiscal de 2026. A empresa entregou uma receita de US$ 13,58 bilhões, batendo as estimativas com folga, puxada principalmente por um salto de 22% no braço de Data Center e IA. Mesmo com um rombo contábil pesado de US$ 4 bilhões ligado à Mobileye que machucou os números no padrão GAAP, a narrativa operacional que a diretoria vendeu convenceu. Investidores começaram a precificar rapidamente cenários hiper otimistas: a expectativa de que o node Intel 18A conquiste clientes externos de peso e a tese de que as cargas de trabalho de IA baseada em agentes acabem forçando uma paridade na proporção entre CPUs e GPUs.

Só que, depois de uma pernada absurda de 174% em míseros 26 pregões, a matemática começa a ficar bem esticada. Uma alta dessa magnitude num intervalo de cinco semanas é uma velocidade que simplesmente atropela qualquer recorde que a própria Intel registrou no auge da bolha da internet, quando seu melhor rali de 26 dias mal passou dos 46%. Hoje, estamos falando de um papel sendo negociado a um P/L projetado (forward P/E) de 119 vezes. É um múltiplo bem salgado, especialmente quando se coloca na balança um fluxo de caixa livre negativo na casa dos US$ 3,87 bilhões e a divisão Intel Foundry ainda sangrando com um prejuízo operacional amargo de US$ 2,4 bilhões. Simplesmente não tem muita margem de manobra para tropeços com a ação precificada na perfeição.

É exatamente por isso que os céticos já estão com o pé na porta. A posição vendida (short interest) contra a empresa bateu a máxima de 52 semanas, chegando a 3,5% do float total. Dados do mercado mostram que a proporção entre gestores ativos comprados e aqueles apostando contra a ação despencou de 7x no ano passado para perto de 4x. Na prática, os shorts estão se acumulando numa velocidade muito maior que os longs, indicando uma deterioração clara no equilíbrio de posições. O entusiasmo virou espuma.

Do ponto de vista técnico, o painel de instrumentos também pisca em vermelho. O Índice de Força Relativa (RSI) da Intel cravou os 86 pontos nos pregões recentes. Para quem opera gráfico, qualquer coisa acima de 70 já grita que o ativo está sobrecomprado; nos 86, a ação está firmemente esticada. A última vez que o RSI da Intel fechou tão alto foi lá em novembro de 2017, e o resultado foi um tombo de 8% nas semanas seguintes.

Além disso, as ações vêm deslizando coladas na banda superior de Bollinger desde o início de abril. Como essas bandas medem o desvio padrão em relação à média móvel de 20 dias da ação, essa insistência no topo do canal é uma anomalia estatística perigosa. O movimento de alta foi tão agressivo que deixou um gap gigantesco aberto lá atrás, na região dos US$ 70 a US$ 80, o que coincide perfeitamente com a linha central do indicador. Juntando essa anomalia gráfica com os fundamentos de uma empresa que ainda queima caixa no seu negócio de fundição, algumas casas de análise já estão jogando o preço-alvo lá para os US$ 88, cravando recomendação de venda com um risco de queda que passa dos 21%. Fica no ar se a tese estrutural de longo prazo vai ter braço para sustentar essa distorção, ou se a gravidade das valuations vai acabar cobrando a conta.