A posição dominante da Nvidia no mercado global de semicondutores enfrenta um teste de resistência complexo, onde o sucesso financeiro imediato colide com incertezas geopolíticas de longo prazo. Embora a empresa continue a apresentar números impressionantes e a superar gigantes como a Amazon em valorização, as tensões contínuas entre Washington e Pequim criaram um cenário de risco que vai muito além das vendas perdidas no curto prazo.
O impacto das restrições comerciais
Os conflitos comerciais entre Estados Unidos e China reviraram as operações da Nvidia naquele que historicamente foi um de seus maiores mercados. No trimestre mais recente, a receita proveniente da China, incluindo Hong Kong, despencou cerca de 45% em relação ao ano anterior, totalizando aproximadamente US$ 3 bilhões. O cenário tornou-se ainda mais turvo com as movimentações recentes: embora a administração Trump tenha sinalizado luz verde para a venda do chip H200 da Nvidia para a China — ainda que com uma tarifa de 25% —, Pequim parece ter adotado uma postura defensiva, barrando importações dessas GPUs, exceto em casos muito específicos.
Curiosamente, a perda inicial de acesso ao mercado chinês de inteligência artificial em 2025 não abalou imediatamente a hegemonia da empresa. A Nvidia tornou-se a primeira companhia a atingir a marca de US$ 5 trilhões em valor de mercado no outono passado. Mesmo com o declínio nas vendas asiáticas, a receita global do terceiro trimestre disparou mais de 60%, alcançando a cifra de US$ 57 bilhões. Contudo, analistas de Wall Street alertam que o perigo real reside no longo prazo. O isolamento forçado pode acelerar o desenvolvimento do setor comercial chinês, incentivando a criação de chips domésticos que, eventualmente, diminuiriam a vantagem tecnológica da Nvidia no palco global.
O “cenário de pesadelo” e o domínio do software
A verdadeira ameaça competitiva, segundo especialistas, não está apenas no hardware, mas no software. Jay Goldberg, analista da Seaport, descreve como um “cenário de pesadelo” a possibilidade de desenvolvedores chineses avançarem na criação de alternativas de código aberto. A vantagem competitiva da Nvidia está profundamente enraizada em sua plataforma CUDA, uma biblioteca de ferramentas proprietárias que permite a programação eficiente de suas GPUs.
Como as empresas constroem suas aplicações sobre o CUDA, o custo de migração para outra plataforma torna-se proibitivo, criando um ciclo de dependência que reforça a liderança da Nvidia. Se surgirem alternativas viáveis fora desse ecossistema, a liderança da empresa no hardware também poderia sofrer um duro golpe.
Nvidia versus Amazon: a disputa no Dow Jones
Apesar das turbulências no oriente, a performance da Nvidia em comparação aos seus pares no mercado americano permanece robusta. Em 2024, tanto a Nvidia quanto a Amazon substituíram a Intel e a Walgreens no Dow Jones Industrial Average, mas as trajetórias das ações divergiram significativamente. A aposta na Nvidia provou-se acertada até o momento, com as ações subindo 38,9% em 2025, contra um ganho modesto de 5,2% da Amazon. Na verdade, a gigante do e-commerce teve o pior desempenho entre as “Sete Magníficas” em 2025, ficando atrás de Alphabet, Apple, Microsoft, Meta e Tesla.
A estrutura de lucro da Amazon revela uma dependência crítica de sua divisão de nuvem. No trimestre mais recente, a margem operacional dos negócios fora da Amazon Web Services (AWS) — que engloba varejo, publicidade e logística — foi de apenas 4,1%. Por outro lado, a AWS é uma máquina de dinheiro, responsável por 60% do lucro operacional da empresa, apesar de representar menos de um quinto das vendas totais. O problema é que o crescimento da AWS desacelerou diante da concorrência acirrada da Microsoft, Google Cloud e Oracle.
Inovação como motor de crescimento para 2026
Diferentemente da Amazon, que possui um modelo de negócios diversificado, a Nvidia opera quase como uma empresa “pure-play” de inteligência artificial, com cerca de 90% de sua receita oriunda de data centers. Os 10% restantes, focados em games e robótica, também mantêm margens elevadas. Essa especialização permite à empresa defender suas margens através da inovação contínua.
Durante a CES no início deste mês, a companhia apresentou sua nova arquitetura Rubin, composta por seis chips diferentes projetados para a próxima fase da IA: agentes autônomos, robótica e direção autônoma. A Nvidia está lançando a Rubin antes do cronograma previsto, com implementações para grandes provedores de nuvem — incluindo a própria AWS — agendadas para o segundo semestre de 2026. A arquitetura vai além da simples GPU, integrando redes e CPUs para uma prontidão em escala de rack.
Para o investidor de longo prazo, a Nvidia continua a ser a melhor proposta de valor para 2026. Embora a Amazon pareça “barata” com um índice preço/lucro de 30,1 vezes (comparado aos 39 da Nvidia), o potencial de crescimento da fabricante de chips justifica o prêmio. Mesmo se o setor de data centers esfriar, a Nvidia possui facetas inexploradas em seu negócio que podem compensar a desaceleração, enquanto a Amazon enfrenta limitações claras para expandir suas margens no varejo. Com a inovação acelerada e um papel central na infraestrutura de IA mundial, há razões sólidas para acreditar que as ações da Nvidia ainda têm fôlego para subir.