O ecossistema das televisões inteligentes no Brasil passa por um momento de transição interessante, unindo a conveniência do conteúdo gratuito à crescente preocupação com a coleta de dados dos usuários. De um lado, plataformas como o Samsung TV Plus consolidam o modelo de canais gratuitos via streaming; de outro, especialistas alertam sobre como esses mesmos aparelhos monitoram cada minuto do que é exibido na tela, independentemente da fonte do sinal.

O crescimento do streaming gratuito no mercado brasileiro

Lançado por aqui em 2020, o Samsung TV Plus se estabeleceu como uma alternativa prática para quem busca entretenimento sem mensalidade. A plataforma combina canais ao vivo com um catálogo sob demanda, onde o telespectador escolhe o que quer ver com um simples clique. Segundo a própria fabricante, o serviço recebe atualizações mensais de conteúdo, mantendo o fôlego para competir em um mercado cada vez mais saturado.

Recentemente, o serviço atingiu a marca simbólica de 100 canais no Brasil. Para Aline Jabbour, diretora de desenvolvimento de negócios da Samsung na América Latina, o número reflete um esforço para tornar o entretenimento diversificado mais acessível. A julgar pelos comunicados oficiais, a empresa não pretende estagnar nessa marca. Atualmente, a grade mistura nomes de peso do cenário nacional, como CNN Brasil, TV Cultura, Cazé TV e o ecossistema da Globo, com gigantes internacionais do porte da Nickelodeon, Bloomberg e MTV. A ideia é cobrir todos os nichos: de faroestes e culinária a reality shows e notícias de última hora.

O preço da conveniência: como sua TV monitora você

Por trás dessa interface amigável e das sugestões personalizadas, existe um mecanismo de rastreamento que muitos usuários desconhecem. Não é segredo que as Smart TVs analisam o histórico de navegação nos apps nativos, como Netflix ou YouTube, para direcionar anúncios. O que pouca gente sabe, entretanto, é que essa vigilância se estende até para aparelhos conectados via cabo HDMI. Basicamente, sua TV moderna tem a mesma capacidade de minerar dados de um DVD de vinte anos atrás quanto tem de uma série original de streaming.

Esse monitoramento ocorre principalmente por duas vias técnicas. A primeira é através dos metadados do HDMI-CEC. Embora essa tecnologia tenha sido criada para facilitar a nossa vida — permitindo que o controle remoto da TV comande o videogame ou o Blu-ray —, ela também envia uma “identidade” do aparelho para o televisor. Com isso, a fabricante sabe exatamente por quantas horas você utilizou o seu PlayStation 5 ou qualquer outro dispositivo conectado.

A tecnologia de reconhecimento automático de conteúdo

A segunda técnica, bem mais invasiva, é o ACR (Reconhecimento Automático de Conteúdo). O sistema funciona de forma quase invisível, tirando pequenas capturas de tela dos pixels que estão sendo exibidos, não importa se a imagem vem de uma antena, de um cabo ou de um console. Esses “rastros” são processados por algoritmos que identificam o filme, programa ou jogo em tempo real.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia confirmam que esse rastreamento acontece mesmo quando a TV é usada apenas como uma “tela burra”, servindo de monitor para outros equipamentos. É uma coleta de dados constante que alimenta perfis publicitários cada vez mais precisos.

Como retomar o controle da sua privacidade

Para quem prefere uma experiência de uso mais reservada, existem caminhos dentro das configurações do software para mitigar essa coleta. O passo mais importante é desativar o ACR. No entanto, as fabricantes costumam “esconder” essa opção dentro de menus extensos de Termos e Condições ou Políticas de Privacidade, que geralmente aceitamos sem ler durante a configuração inicial do aparelho.

Cada marca posiciona esse ajuste em um local diferente, exigindo que o usuário navegue pelas opções de suporte ou privacidade para encontrar os interruptores de “interatividade” ou “visualização de informações”. Desativar essas funções não impede o funcionamento da TV, mas certamente limita o quanto de informação o seu televisor compartilha sobre a sua rotina com servidores externos.