Para entender onde a Motorola está pisando agora, a gente precisa dar um passo atrás e olhar para o básico do portfólio da marca. Lá no terceiro trimestre de 2023, a empresa colocava no mercado o Moto G14. Era um aparelho puramente utilitário, pesando seus 177 gramas, que não prometia o mundo, mas entregava um pacote honesto para quem só precisava do smartphone rodando o Android 13 com a interface MyUX. A pegada aqui era sobrevivência diária, encabeçada por uma bateria LiPo parruda de 5000 mAh que segurava com folga a onda do chipset Unisoc T616 de 64 bits e seus 4 GB de RAM.
A experiência visual do G14 era exatamente o que se esperava da categoria. A tela IPS LCD de 6.5 polegadas, protegida por Panda Glass, ficava restrita à resolução de 720 x 1600 pixels, com uma densidade de 270 ppi e uma taxa de atualização cravada em 60Hz. No departamento fotográfico, o setup de 50 MP com abertura F 1.8, acompanhado de um sensor secundário de 2 MP, dava conta das redes sociais. Gravava vídeos em Full HD a 30 fps, trazia as já batidas detecções de rosto e sorriso na câmera frontal de 8 MP e vinha com mimos analógicos que ainda fazem falta em muito aparelho caro, como rádio FM e slot para MicroSDXC de até 1 TB para expandir os 128 GB nativos. A falta de NFC era um banho de água fria, mas o aparelho garantia o 4G LTE no esquema dual SIM, Wi-Fi dual band, Bluetooth 5.0 e leitor de digitais. Era a definição de um celular prático.
Corta para 2026. A conversa agora é outra, as cifras são bem maiores, mas a essência de tentar encontrar o ponto de equilíbrio perfeito para o consumidor continua ditando as regras. Se o G14 era o rei do básico, hoje a grande aposta da fabricante no segmento de dobráveis é o Motorola Razr Plus. E note que estamos falando da versão Plus, não do modelo base de entrada e muito menos da variante Ultra, que assalta a carteira do usuário cobrando a bagatela de 1.500 dólares. O Plus se firma como o “sweet spot” da linha flip.
E o que exatamente a edição do Razr Plus de 2026 traz para a mesa em relação ao modelo do ano passado? Sendo bem franco, é mais um polimento cirúrgico do que uma revolução. A Motorola embutiu uma bateria mais generosa e trocou a lente teleobjetiva por uma câmera ultrawide. O resto da ficha técnica praticamente não sofreu mutações. O peso estacionou nos mesmos 189 gramas e a espessura de 7.1 milímetros, quando o aparelho está aberto, mantém a identidade fina e leve da linha.
A mudança mais sensível ao toque é no acabamento. A moldura perdeu aquele aspecto glossy brilhante do ano passado e assumiu um tom fosco. Fica com uma cara mais madura, menos espalhafatosa, o que considero um acerto. Para o mercado americano, a Motorola limitou o aparelho a uma única cor, batizada de Pantone Mountain View, um tom de verde terroso bastante elegante. Já nos botões laterais, a gente nota um recuo da marca: o botão físico dedicado para IA, presente na versão de 2025, sumiu. Agora você tem apenas os comandos clássicos de energia e volume.
A questão da durabilidade ainda é um calcanhar de Aquiles para quem flerta com os dobráveis. O Razr Plus de 2026 repete o IP48 do antecessor. Traduzindo do juridiquês técnico, você tem proteção total contra água e uma blindagem razoável contra partículas grandes, mas a poeira fina ainda é a grande vilã das engrenagens. O cobiçado IP68, com vedação total contra poeira, continua sendo uma espécie de Santo Graal para os flip phones.
Onde a Motorola decidiu jogar seguro foi nos displays. A dobradinha da tela principal de 6.9 polegadas com a excelente tela externa de 4.0 polegadas, que vai de ponta a ponta na tampa, segue intacta. Ambas rodam em 1080p. A fluidez da tela interna ainda é um monstro para jogos, sustentando absurdos 165Hz de taxa de atualização — uma especificação que a linha Flip da Samsung, por exemplo, ainda fica devendo. E sobre o elefante na sala, que é o vinco no meio da tela flexível: a engenharia conseguiu deixar a marca bem sutil, mas ela não é invisível. A física das telas dobráveis avança a passos largos, mas ainda deixa seus rastros quando a gente desliza o dedo pelo meio do display.